Educação

Ocupações em escolas: estudantes resistem por educação

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Domingo, 22 Maio 2016
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Após uso de força desproporcional pela PM contra ocupação de estudantes na sede da Secretaria de Educação, Defensoria Pública critica ação violenta do Estado.

André Lobão*

 

A Defensoria Pública do Estado do Rio lamentou o uso da força policial, sem autorização judicial, na retirada dos estudantes que ocupavam a Secretaria Estadual de Educação, na madrugada de sábado (21) e considerou a ação desproporcional à ameaça que os adolescentes instalados na sede da secretaria poderiam representar.

Os defensores públicos consideram que a segurança dos alunos deveria ter sido priorizada. Na desocupação feita às 4h30, policiais do Batalhão de Choque usaram spray de pimenta para forçar a saída de um grupo de vinte jovens que havia permanecido no local, após reunião com o secretário de Educação, Wagner Victer, realizada na última sexta (20).

Segundo informado no site do 'O Dia' pelo menos dois estudantes perderam os sentidos e foram socorridos por outros jovens que classificaram a ação como truculenta. Eles disseram que a polícia usou spray de pimenta diretamente no rosto deles.

 A realidade de uma ocupação

Mas por que o governo do Estado do Rio de Janeiro demonstra tanto despreparo no tratamento e resolução dos problemas da educação? A resposta para isso está na reação organizada demonstrada pelos estudantes secundaristas que revelaram a realidade de abandono que sofre sistema educacional fluminense. A crise financeira afeta os serviços que são terceirizados, atrasa salários e desmascara o descaso da causa pública.

A equipe da Agência Petroleira de Notícias – APN esteve presente em uma ocupação e constatou de fato essa triste realidade, fazendo um registro de como os alunos, pais e professores estão reagindo a isso.

Imagem: Natãn Phillip


As ocupações de escolas estaduais no Rio de Janeiro já chegam a mais de 70 instituições no estado. O movimento dos estudantes da rede estadual de ensino reivindica melhorias na gestão da educação no estado. O tradicional Instituto de Ensino Superior de Educação do Estado do Rio de Janeiro, o ISERJ, localizado no bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio, também foi ocupado. Diante da precarização do ensino no estado e na própria instituição, que também sofre com a má conservação, o jeito foi optar pela ação direta. Já que o poder público trata a educação com desleixo. Assim, um coletivo integrado por alunos, professores e pais resolveu botar literalmente a “mão na massa”.

Estamos mostrando que não queremos o máximo, mas sim o mínimo. Não queremos salas com ar condicionado, notebook de última geração, computador de graça e professor ganhando 50 mil Reais. Nós queremos comida, limpeza, higiene e educação. É só o mínimo” - disse Juan Cataldo, aluno do ISERJ.

Em greve há três meses, e denunciando a situação por conta da má gestão no Estado do Rio de Janeiro, os professores se juntam aos alunos nesta ocupação.

Observar os maus tratos aos quais a educação tem sido submetida ao longo dos tempos no Rio de Janeiro, e no Brasil de um modo geral, quase nos impõem social e moralmente a tomarmos uma atitude. Aqui o apoio quase que integral os professores do ensino médio, apoiamos esses meninos e vemos com bons olhos esse ato liderado por eles, pressionando as instâncias superiores do Estado a terem mais atenção. Aqui no ISERJ existem alimentos fora do prazo de validade, alunos do turno da noite sem refeição. Enfim, uma série de situações que levaram a esse movimento de ocupação, que é absolutamente legitima e valida como instrumento de pressão política” - explica o Professor de Filosofia do instituto, César Cipriano.

A situação é tão alarmante e pode ser evidenciada quando os integrantes da ocupação encontram alimentos deterioradores e com prazo de vencimento expirado, além de identificar problemas de estrutura e manutenção na parte elétrica e na piscina da instituição.

Fizemos rondas nos prédios da escola para identificar problemas que pudéssemos consertar. Encontramos focos de mosquito em pontos que tinham água parada; a bomba da piscina não tinha nenhuma proteção, qualquer podia mexer e fios desencapados. Também encontramos 90 quilos de feijão fora do prazo de validade, carne estragada; bebidas lácteas também com validade vencida, que iam ser distribuídas para os alunos; frutas e alimentos deteriorados como melancias, laranjas, banana e cebola, entre outros. Além de vários problemas hidráulicos nos banheiros” - denuncia a aluna do ISERJ, Ana Paula.

As ocupações nas escolas públicas do Estado do Rio de Janeiro mostram sim que é possível juntar pais, alunos e professores em prol de um objetivo comum: educação pública e de qualidade.

É um momento ímpar para a sociedade e para essa nova geração. É preciso entender que o Estado se encontra omisso e quer produzir uma educação de caixinha. Uma educação que não faça com que a criança e o adolescente evoluam e produzam positivamente. Então estar na ocupação é mostrar uma nova realidade, tanto na prática, quanto na teoria. Na prática para os alunos, pois assim ele lidam com essa realidade, e na teoria mostra ao Estado que sim é possível termos uma escola organização e com gestão. Basta ter boa vontade para fazer isso, coisa que hoje não existe” - analisa Andrea Figueira, mãe de um aluno participante da ocupação.

Em ocupações como do ISERJ os estudantes cuidam da manutenção que incluem serviços de limpeza, cozinha e segurança, além da organização de oficinas e cursos preparatórios para o Enem e promoção de cinedebates estimulados por voluntários solidários ao movimento.

É o conceito de auto organização sendo colocado na práxis através das ocupações. Fica assim demonstrado que é possível reorganizar uma escola por quem a integre e faz de verdade: a sua comunidade.

 Imagem: Natãn Phillip

 

Assista a versão da reportagem em vídeo

* André Lobão é jornalista da Agência Petroleira de Notícias - APN e da TV Petroleira

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