Opinião

Carta de Moína Lima

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Quinta, 20 Abril 2017
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Filha do compositor e cantor Tayguara escreve carta aos reacionários e apoiadores da ditadura.

Para aqueles que mandaram eu acordar ou passar pro outro lado, quero dizer o seguinte:

Eu acordei quando eu tinha 4 anos de idade quando meu pai de uma hora pra outra resolveu deixar nossa casa no RJ em Santa Teresa e se autoexilar com a família mais uma vez.

Eu acordei quando nesta mesma idade, viajamos pro Uruguai, Paraguai e Argentina de buzum sem rumo pra tentarmos ter paz fugindo da repressão. Minha mãe grávida da minha irmã mais nova, carregando uma filha pequena nos braços e malas e meu pai com pesos nas costas também, os dois desesperados precisando de proteção.

Eu acordei quando lá em Recife que é onde fomos parar pra termos um pouco de tranquilidade por mais um ano e pouquinho, minha irmã nasceu e descobriram que meus pais estavam lá e lá fomos nós de novo alugar outro lugar pra ficar, dessa vez em SP, onde meu irmão nasceu.

Eu acordei quando eu percebi que eu não me fixava em nenhuma escola, porque eu sempre precisava estar partindo com 4,5,6,7 anos de idade. Que minhas notas na escola não passavam de 4.0.

Que eu reprovei 2 x a terceira série por falta e rendimento.
Acordei quando tivemos nossa casa invadida por terroristas e vi minhas bonecas e meus brinquedos todos amassados, quebrados, sem olhos, sem cabeças (pra aterrorizar mesmo as crianças da casa).

Acordei quando meu pai resolveu peitar tudo e voltar pra sua casa no RJ e jogaram gás lacrimogêneo em cima de mim no Humaitá, eu com apenas 8 anos de idade.

Acordei quando meu pai me colocou na corcunda de suas costas pra fazer manifestação e parou em frente a Câmara dos Vereadores no RJ depois de uma explosão e me mostrou o que era uma ditadura.

Acordei quando comecei a entender que meu pai foi o artista musical mais censurado do Brasil (confirmado pelos órgãos nacionais), muita das vezes por nenhum motivo. Que isso refletia financeiramente em nossas vidas, porque meu pai não tinha mais trabalho, não cantava mais e só recebia dinheiro de direitos autorais e royalties de músicas que não estavam proibidas nas rádios.

Sorte nossa que tínhamos casa própria no RJ, senão a situação seria pior.

Acordei quando minha mãe passou a ser perseguida por garimpeiros quando lutava pela causa indígena e foi listada como "Marcada Pra Morrer" e teve sua cara estampada no Jornal Nacional.

Acordei quando minha mãe sofreu violência dessa mesma corja.

Acordei quando meu pai adquiriu um câncer de bexiga e morreu aos 50 anos de tanto estresse na vida. Esse câncer que matou o meu pai com apenas 50 anos de idade foi o reflexo de tudo isso. E eu não perdoo quem matou o meu pai: a ditadura.

Então vão se ferrar vocês com seus falsos moralismos.
Porque só quem sente na pele é quem pode falar alguma coisa. Ou quem tem no mínimo conhecimento histórico do que foi uma repressão.

E já aviso, quem é apoiador de ditadura, faça o favor de se retirar da minha lista imediatamente. Não aceito, não compartilho, não quero estar NUNCA perto de vocês.

Quanto ao meu posicionamento político é isso: Sou filha de comunista, sou de esquerda e assim me permanecerei.

Sou socialista e assim serei. Quem não gostar, que se mande também. Tô nem aí. E quem quiser ficar, que me respeite e não me mande acordar, porque acordada eu já estou há muitos anos. Tenho 41 anos e comecei a sacar tudo aos 4.

Moína Lima

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