Reforma Agrária

“Aos nossos mortos, nenhum minuto de silêncio, mas toda uma vida de luta”

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Sexta, 02 Novembro 2012
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Essa foi a saudação inicial do MST ao ocupar, na madrugada do Dia de Finados, fazenda onde foram incinerados corpos de combatentes da ditadura militar

 

 

As lembranças de mortes e torturas darão lugar a dias de vida e esperança. O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra começou a escrever uma nova história para o Complexo da Usina de Cambaíba em Campos dos Goytacazes. A fazenda localizada no município do norte fluminense que é investigada pelo Ministério Público Federal por esconder a morte de pelo menos dez opositores do regime militar começou a ganhar um novo destino. Às 5 horas da manhã desta sexta (2), cerca de cem famílias ocuparam estas terras com o sonho de cultivar e produzir o seu próprio sustento. A ação do MST tem o objetivo tanto de mobilizar a construção de um memorial nas ruinas dos fornos para que os crimes ali cometidos não sejam esquecidos quanto acelerar a execução da decisão da Justiça Federal que determinou em julho deste ano a desapropriação da fazenda para reforma agrária. A propriedade tem capacidade para assentar 275 famílias.

A Fazenda Cambaíba abrange uma área de 2800 hectares. Em 1998, saiu o decreto de desapropriação. Os donos da usina recorreram e conseguiram interromper o processo alegando que se tratava de área produtiva e que integrava um projeto de desenvolvimento local. Para pressionar a tramitação, o MST ocupou Cambaíba e as famílias foram violentamente removidas em 2006. Em julho deste ano, a 2ª Vara da Justiça Federal de Campos torna a reconhecer que se trata de área improdutiva e determina que o Incra continue a executar o processo de desapropriação. A dificuldade agora está em estabelecer o preço da propriedade e o Governo Federal garantir o pagamento. O valor da terra é determinado pelo mercado, como a fazenda está próxima do megaempreendimento do Porto do Açu a região valorizou-se muito. Vale destacar que os proprietários do terreno acumularam uma dívida de 80 milhões de reais com a União.

A usina pertencia ao ex-vice governador do Rio Heli Ribeiro Gomes (1967-1971). Em depoimento para o livro Memórias de uma Guerra Suja, o ex-delegado Cláudio Guerra afirma que corpos de pelo menos dez combatentes mortos na ditadura foram queimados ali. Segundo o agente da repressão militar, os fornos de Cambaíba incineraram David Capristano, comunista histórico, o casal Ana Rosa Kucinski Silva e Wilson Silva e outros presos políticos, como João Batista Rita, Joaquim Pires e João Massena Melo.

O coordenador do MST Cícero Guedes explicou que as tarefas agora, depois de montar acampamento, são organizar as famílias em núcleos, formar equipes para divisão das tarefas e voltar às comunidades para mobilizar mais pessoas para integrar a ocupação. O sem terra defende que só com luta será possível garantir função social à terra e combater a lógica excludente do latifúndio:

- Governo nenhum vai assinar a reforma agrária, se a gente não for pra cima e não ocupar esses latifúndios abandonados, improdutivos, que causam tanta miséria e opressão. No dia de finados, com essa ocupação lembramos tantos companheiros que foram assassinados aqui. Temos certeza que cada um desses lutadores está presente e ajudará a erguer nossos lares e no nosso plantio – afirma Cídero.

Fonte: Agência Petroleira de Notícias

Fotos: Rafael Duarte / Agência Petroleira de Notícias



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