Reforma Agrária

Ato na ABI lembra os que foram mortos na luta pela reforma agrária

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Terça, 16 Abril 2013
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Militantes e amigos do MST se reuniram na  segunda-feira (15), na ABI, para lembrar os 17 anos do massacre de Eldorado dos Carajás e todos os mártires da luta camponesa.

O “abril vermelho” começou formalmente, no Rio, com um ato pela Reforma Agrária e Justiça no Campo. Cerca de 500 militantes, amigos e amigas do MST, lotaram o auditório da Associação Brasileira de Imprensa (ABI)  na atividade que marcou o início da Jornada de Lutas que já faz parte do calendário dos trabalhadores sem terra. Os milhares de mártires do movimento serão homenageados, simbolizados por um dos mais terríveis e sangrentos massacres de trabalhadores brasileiros: Eldorado dos Carajás, no Pará, em 17 de abril de 1996, que deixou um saldo de 21 mortos e dezenas de feridos.

A mística de abertura relembrou outros massacres, como Corumbiara, Candelária, Felisburgo e Carandiru:

“Seja no campo ou na cidade, dentro ou fora da prisão, perto ou longe dos grandes centros, a vítima sempre é a classe trabalhadora” – disse a professora Virgínia Fontes, da UFF, que compôs a mesa ao lado do juiz Rubens Casara, da Associação Juízes para a Democracia; e do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). João Pedro Stedille representou a Coordenação Nacional do MST.

Na plateia, assentados e acampados de todo o estado confraternizaram com militantes de movimentos sociais, de partidos políticos e sindicatos, além de estudantes. Das várias entidades presentes, o recado veio em uníssono: a reforma agrária é uma luta de todos. A grande faixa estendida no auditório refletia o sentimento: “Chega de violência no campo. Queremos reforma agrária!”

Rubens Casara criticou o próprio poder que representa, o judiciário, “cuja função no Brasil tem sido, unicamente, manter o status quo”. Casara ressaltou que o debate sobre a  questão agrária no judiciário é permeado por pré-conceitos, e que os movimentos sociais são visto apenas como obstáculos à manutenção da ordem. Ele finalizou: “Romper o silêncio é necessário. A democracia é a realização dos direitos fundamentais e a terra é um deles.”

Colaboradora histórica do MST, Virgínia Fontes estava emocionada. Além de professora da UFF e pesquisadora da Fiocruz,  ela também dá aulas na Escola Nacional Florestan Fernandes. Na sua avaliação, “os massacres acontecem num contexto de defesa ferrenha da propriedade, seja no campo jurídico ou no midiático”.

O deputado Marcelo Freixo colocou claramente: “Estar aqui é reafirmar que temos lado. Estamos do lado da luta pela reforma agrária e contra a violência no campo.” Freixo lembrou a todos o editorial publicado pelo jornal O Globo que dizia que a reforma agrária não é mais necessária. “Não percebem que essa concepção de desenvolvimento, que a mesma aplicada aos grandes empreendimentos com a TKCSA, produz apenas miséria urbana e cidadãos invisíveis e supérfluos. É só ver como o direito do consumidor tem mais espaço na Câmara do que os direitos humanos”.

Medalha Tiradentes em  memória de Cícero Guedes

Mas houve um momento em que a emoção transbordou, incontida: quando o deputado Marcelo Freixo entregou a Medalha Tiradentes, comenda máxima concedida pela Alerj, à família do Sem-Terra Cícero Guedes. Ele foi assassinado em janeiro deste ano, em Campos dos Goytacazes. O deputado disse que essa entrega dignificava a medalha e lembrou da luta de Cícero pela reforma agrária, contra o trabalho escravo e pela agroecologia. A sem-terra Regina dos Santos, assassinada também em Campos, 10 dias depois, também foi homenageada.

João Pedro Stedille encerrou a noite, com uma aula sobre a luta dos trabalhadores pela terra na história do Brasil. A lembrança de Cícero, bem viva no coração dos camponeses fluminenses, foi a gota d’água, atiçando os sentimentos: “São Cícero pagou com a vida o sonho de ver a terra dividida” – disse Stédille.

A  história do Brasil sempre foi banhada pelo sangue de quem luta pela terra, desde os índios, passando por Zumbi e chegando aos sem-terra mortos na atualidade. “Se nós não lembrarmos os mártires, não seremos dignos de seguir sua história”  - sentenciou.

Segundo Stedille, depois da derrota histórica do projeto democrático popular em 1989, as possibilidades de realização de uma reforma agrária clássica foram ficando cada vez mais distantes. Durante o governo FHC, a situação piorou, sobretudo com a Lei de Patentes e a Lei Kandir. Em 1996, os tanques lançados contra os trabalhadores durante a greve dos petroleiros foram um golpe muito duro no movimento sindical. Com isso, o MST ficou isolado, e na mesma época ocorreram as chacinas de Eldorado dos Carajás e Corumbiara.

Ainda segundo o dirigente, a esperança que veio com a eleição de Lula levou o MST a reunir 200 mil famílias acampadas em beiras de estrada. No entanto, já não era o PT no governo, e sim uma aliança que não tinha nenhum interesse em fazer a reforma agrária. Após a Veja publicar a foto de Lula com o boné do MST em 2003, duas outras chacinas ocorreram: Unaí e Felisburgo, ambas em 2004.

Agronegócio é principal responsável pela alta no preço dos alimentos

Stedille apontou o agronegócio como principal culpado pela recente alta no preço dos alimentos. “Enquanto o gado morre de fome pela seca no nordeste, a Bunge e a Cargill exportam nosso milho para os EUA fazerem etanol.”

Para ele, a correlação de forças é desfavorável, mas nossa causa é justa. Temos três desafios históricos: seguir denunciando a impunidade; denunciar a contradição do agronegócio – o agrotóxico, concentração de terras, perda da soberania alimentar e invasão do capital estrangeiro; e finalmente denunciar os ataques que vêm sendo feitos ao meio-ambiente.

Stedille finalizou colocando a reforma agrária como uma luta contra o capital. “Não é só dividir terras. A reforma agrária é para produzir alimentos saudáveis. E devemos combinar isso com educação, pois não é a terra que liberta, mas sim o conhecimento. A reforma agrária é uma luta de todos.”

A Jornada de Luta segue no Rio de Janeiro nos próximos dias. Nesta terça-feira (16) houve um ato público, em frente à sede da Petrobrás, contra o próximo leilão do petróleo, previsto para acontecer nos dias 14 e 15 de maio. Os trabalhadores sem terra também se reuniram com o INEA, órgão ambiental do estado, já que diversos processos de desapropriação foram engavetados ao chegarem à apreciação do INEA. Na quarta-feira (17), os sem-terra se juntam aos atingidos pela Vale num ato em frente à empresa.

Fonte: MST (editado pela Agência Petroleira de Notícias)

Foto: Alan Tygel

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