Saúde

Rio perde laboratório de análise sanitária

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Quinta, 07 Fevereiro 2013
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Assista o vídeo-documentário sobre o absurdo desmonte do Lanagro.

 

A repórter Marília Gonçalves, do Canal Ibase, conseguiu romper o silêncio e ouvir todos os lados – governo e funcionários do Lanagro -  confirmando que, de fato, o fechamento do laboratório que fiscaliza as condições dos alimentos no RJ é uma ameaça à saúde pública e a transferência dos materiais foi feita em condições inadequadas, acarretando graves prejuízos: mais uma para colocar na conta de Cabral (APN).

A Constituição Federal estabelece, no seu 200º artigo, que é de competência do Governo Federal “fiscalizar e inspecionar alimentos, compreendido o controle de seu teor nutricional, bem como bebidas e águas para consumo humano”. Parte deste trabalho era realizado no Rio de Janeiro, desde 1935, pelo Laboratório Nacional Agropecuário (Lanagro), ligado ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O Rio, no entanto, não conta mais com este serviço. O Laboratório, que funcionava ao lado do Maracanã e dividia o terreno com o antigo prédio do Museu do Índio, atual Aldeia Maracanã, foi fechado pela EMOP (Empresa de Obras Públicas).

Os prédios que compunham o Lanagro serão temporariamente ocupados pelas construtoras Odebrecht e Andrade Gutierrez, responsáveis pela reforma do estádio Mário Filho. As antigas salas de fiscais federais – veterinários, engenheiros, biólogos – erão transformadas em escritórios de obra. Mais tarde o prédio será demolido para a construção de um shopping center e, possivelmente, um estacionamento.

A ameaça de demolição de uma escola e do antigo Museu do Índio (Aldeia Maracanã), assim como a destruição da pista de atletismo Célio Barros tiveram repercussão na mídia. Mas o caso do Lanagro foi sufocado, apesar do risco a que a população do Estado ficará exposta, com o fechamento do laboratório.

Para Douglas Carrara, antropólogo indigenista, faltou mobilização dos próprios funcionários, temerosos de uma represália por parte do governo. “Como são funcionários públicos, muitos têm medo de que uma só canetada os transfira para Belém do Pará, por exemplo” - explica o professor, que conheceu o Lanagro a partir do envolvimento com o caso da Aldeia e está agora fazendo um documentário sobre a situação.

Moradores e turistas podem estar em risco

O Lanagro dava suporte laboratorial às atividades de defesa, inspeção e fiscalização de alimentos e bebidas que entram no Estado do Rio de Janeiro (mas não necessariamente ficam aqui, já que chegam pelo porto muitos produtos que são distribuídos para todo o país). Em outras palavras, realizava “análise físico-química e microbiológica de alimentos de origem vegetal, animal e águas de estabelecimentos industriais”, de acordo com a definição do próprio Mapa. Além disso, também eram analisadas bebidas como cervejas, sucos e vinagres.

A assessoria do Ministério afirmou ao Canal Ibase, por e-mail, que as análises passarão a ser realizadas em laboratórios localizados em outros estados: “O Laboratório será transferido para o prédio do Mapa. As reformas para a instalação do laboratório já estão em andamento. Enquanto são realizadas as reformas, as análises serão feitas em outras unidades do Lanagro, sem prejuízo para qualidade dos testes. Existem instalações do Lanagro em São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pará, Goiás e Pernambuco, ou seja, os produtos apreendidos no Rio de Janeiro teriam de ser encaminhados aos laboratórios de SP ou MG, que estão mais próximos”.

No entanto, esses laboratórios não necessariamente têm as mesmas especialidades que o do Rio, então pode ser que o material tenha que ir ainda mais longe. “Tendo em vista que os produtos são perecíveis e que o Rio de Janeiro é o segundo maior mercado consumidor do país, a demora desta transferência pode colocar em risco a população. Sem falar que os demais laboratórios vão ficar sobrecarregados”, desabafa Douglas.



As condições da mudança para a Zona Portuária

Segundo o agrônomo Edson Amorim, funcionário do Lanagro, o laboratório estava ameaçado de ser despejado há dois anos, mas não havia outro local para ser instalado. Há relatos, no entanto, de que a pressão teria aumentado no final de 2012, quando ficou decidido que o Lanagro seria transferido para a sede do Mapa, na Rua Barão de Tefé, Zona Portuária da cidade. Finalmente, no dia 14 de janeiro, funcionários da EMOP “avisaram que a mudança deveria ser feita até o final deste mês”. Diversos funcionários estavam desolados enquanto ajudavam a fazer a mudança. Mais de um entre eles estava abrindo mão de suas férias para estar ali e tentar evitar que todo o trabalho de anos se perdesse.

O cenário que se via no momento da “transferência” do laboratório era de total descuido com os materiais. Uma grande quantidade de equipamentos laboratoriais – tubos, ensaios, bastões de vidro – estava quebrada e jogada na chuva, junto com livros de registro que não mais teriam utilidade alguma, pois se encontravam dentro de sacos pretos de lixo completamente molhados.

“Isso tudo é dinheiro público. Esse material custa uma fortuna e está todo perdido”, lamenta Jesus Gomes, engenheiro químico, fiscal federal que trabalha há cerca de 30 anos no Lanagro. Jesus foi um dos únicos funcionários que não se calaram diante da situação.

Funcionários inconsoláveis

A irresponsabilidade da mudança não está relacionada apenas ao tratamento dado aos equipamentos e maquinário do laboratório. Jesus conta que dezenas de árvores já foram cortadas pelos operários da reforma do estádio, sem autorização. “Essas árvores são centenárias. Tem árvore aqui que nem os biólogos souberam identificar, e os funcionários da EMOP disseram que vão cortá-las”, relata.

Segundo o professor Douglas Carrara, muitas das máquinas do Lanagro já se encontram no Mapa, mas em um galpão, inutilizadas. O engenheiro Jesus Gomes disse que ainda não há prazo para retornar ao trabalho. Assim como vários dos seus colegas de trabalho, ele disse que tem passado dias difíceis. Jesus sente dificuldade para dormir e teme represálias, por externar suas preocupações. A dor desses profissionais não se pode expressar aqui. Tampouco o dano que lhes é causado:

“Muitas décadas de experiência estão sendo descartadas, uma vez que vários estão deixando de exercer suas profissões e, sem laboratório, não têm como passar o conhecimento para terceiros. Tudo por causa de dois jogos da Copa do Mundo, lamenta Carrara. Ouvi de diferentes funcionários do Lanagro sobre a urgência de se aposentar. Eles parecem não ver mais sentido no trabalho que prestavam para o Ministério. Hoje estou pensando que é mais importante cuidar da minha própria vida e  saúde”, conclui Jesus.


Fonte: Por Marília Gonçalves, Canal Ibase.

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